Regras do Circulo K Translated by Ronaldo Lopez de Oliveira & Gloria Delbim

Regras Japonesas
1. Tirar os sapatos quando entrar em casa.
2. Sempre levar omiyage quando for visitar alguém.
3. Nčo deixe o ohashi enfiado na tigela de arroz como dois postes.
4. Nčo usar o número quatro.
5. Vestir-se de acordo com a idade e a estaćčo do ano.
6. Para o mesmo trabalho, homens recebem 1,200 yens por hora, mulheres 900 yens.
7. Usar os chinelos para entrar na toilete, mas nčo esquecer de deixá-los na saída.
8. Enryo até que a pessoa insista.
9. Lavar-se antes do ofuro, e nčo trazer a toalha com vocź.
10. Dirigir do lado esquerdo; se for muito estreito, ficar no meio.
11. Vestindo o quimono, transpasse o lado esquerda para o direito.
12. Seguir a tabela de aumentos de salários e mudanća de títulos de acordo com a idade do homem.
13. A opiničo dele, é a opiničo dela, é minha opiničo , é a sua opiničo. Estou de acordo.

A Tabela de Regras
(Uma tabela grande em japonźs e portuguźs no bairro do Homi-Danchi, um complexo de apartmentos onde moram cerca de 8,000 pessoas -- 2,000 dos quais sčo brasileiiros -- em Homi-gaoka, na cidade de Toyota)

Vamos respeitar as regras do condomínio residencial!
Por favor nčo estacionar sem pedir permissčo.
Vamos parar de dirigir motocicletas em alta velocidade.
Por favor nčo usar a praća tarde da noite e antes do amanhecer.
Vamos parar de jogar latas, garrafas e lixo nas ruas e em volta dos prédios.
Por favor nčo escrever nas paredes ou em objetos públicos.
Durante festas ou reuniões, favor de baixar o som.
* Vamos parar de fazer churrasco nos terraćos.
Vamos diminuir a poluićčo sonora.
* Por favor baixar o volume de sua televisčo e do sistema de estéreo.
* Conversar em voz alta incomoda os vizinhos.
Por favor depositar o lixo de acordo com os tipos determinados e nos locais apropriados.
Nčo jogar objetos ou lixo pelas janelas dos apartamentos.
* Nčo jogar bitucas de cigarros no chčo.

O condomínio residencial é um lugar onde muitas pessoas vivem comunitariamente. Vamos colaborar para ter um a vida diária harmoniosa, pensando também em nossos vizinhos.
--A Corporaćčo Municipal para Conservaćčo Habitacional
Chubu Filial/Escritório Nagoya

Os brasileiros tem tidos dificuldade em seguir todas essas regras. E proibido musica com volume alto. E proibido conversar tarde de noite na praća. E proibido churrasco. E proibido correr de motocicleta. Uma categorizaćčo extremamente detalhada de lixo (lixo para queimar, latas, garrafas, plásticos, ítems grandes e pequenos) com métodos de como fazer isso, dias e tempos específicos, e em locais determinadas. Os brasileiros esquecem de passar as avisos ou nčo leźm seus conteúdos. Finalmente, os dias de limpeza coletivas sčo mensalmente na manhč nos domingos ąs 8:30. Enquanto os vizinhos japoneses estčo fora cortando árvores, varrendo e cortando grama, os brasileiros estčo dormindo, preferindo pagar a multa em vez de acordar numa hora desgraćada desta.

Enquanto isto, os residentes japoneses nčo entendem. Brasileiros nčo tem noćčo de civilidade. Suas presenćas fizeram uma bagunća na rotina japonesa. Nčo morando neste condomínio, é difícil imaginar a reclamaćčo. Uma tour pelo Homi-Danchi e seus arredores vocź tem a sensaćčo de um lugar quieto, oprimido -- o som dum povo dormindo que trabalha ą noite, o som duma minoria que quer ser aceita, o som dum povo tentando ser muito quieto. Até as crianćas brincam silenciosamente. Isto é o máximo de silencio que o brasileiro consegue produzir. Provavelmente o máximo dentro da regra. Mais do que isso é impossível.


Regras Brasileiras

1. Nčo há regras.
2. Todas as regras podem ser infringidas ou deixadas de lado.
3. Dar um jeitinho.
4. Sempre traz os bebes e crianćas nos festas.
5. Homens no terraćo com cerveja; mulheres na cozinha.
6. Saindo da festa, reserve uma hora para se despedir de cada pessoa.
7. Mulheres: Dois beijos ao se encontrar; trźs beijos para casar; quatro para nčo morar com a sogra.
8. Homens: Mčo esquerda no ombro, a outra batendo na barriga.
9. Nada é sagrado; faća uma piada.
10. Levar vantagem nčo é necessariamente roubar.
11. Como nada funciona, nčo fazendo nada talvez seja a melhor coisa.

Os brasileiros sčo pessoas que gostam de contato. Eles tocam-se bastante. Eles beijam-se e se abraćam. Eles beijam-se e se abraćam quando se encontram, e se beijam e se abraćam quando se despedem. Existe uma certa técnica para aproximar-se de alguém, mantendo-se uma certa distancia do rosto. Mesmo que pareća natural e amigável, há regras especificas para cada situaćčo. Um japonźs ficou tarado e agarrou os peitos de uma brasileira. Ela furiosa saiu correndo com um cano, nas mčos, atrás dele. Depois ele explicou seu impulso; aqueles seios eram muito bonitos, mas ele tinha que verificar se eles eram verdadeiros.

Mas mesmo assim, os brasileiros tem uma certa expectativa a respeito do abraćo. Eles mandam abraćos nas mensagens. Eles mandam beijos. A expectativa é de que esta demonstraćčo de afeićčo é também uma demonstraćčo de calor humano. Sem isto, o mundo seria um lugar frio; outros povos que acham esta “beijaćčo” desconfortável, sčo um povo frio. Americanos e japoneses, raramente mostram afeićčo em público; para beijar um conhecido, isto é considerado um pouco demais. Um simples cumprimento é suficiente. Ou que tal uma pequena circunflexčo? Provavelmente, nčo é sobre frio ou quente; é mais sobre o que é mais confortável para o corpo fazer. Brasileiros beijam. Japoneses ficam nus juntos em banhos quentes.

Um dos traumas mais conhecidos dos nisei/sansei é que nossos pais nčo mostram afeićčo um a outro ou a seus filhos. A falta de afeićčo entre Nikkei na sociedade brasileira ou americana torna-se uma crise de identidade. Reclamam: Penso que meus pais nčo me queriam. No meu caso, um lado da minha família é frio e o outro lado é mais caloroso, eu aprendi que afeićčo é manifestada de várias maneiras. Mesmo assim, crescendo e vendo que os japoneses nem pegavam nas mčos, tinha uma idéia de que também nunca se tocavam. Trabalhando com uma diretora japonesa de teatro em uma de minhas pećas e vendo-a dirigir meus personagens japoneses, quando em contato um com o outro, finalmente eu aboli aquela imagem. Declaraćčo: japoneses de fato tocam-se uns aos outros.

Abraćos e beijos. É uma arte especial entre latinos. É fácil pensar que a regra é “nčo” abraćar e “nčo” beijar, e que esta regra nos separa. Mas é também possível pensar que abraćar e beijar é uma regra em si, e só a regra acaba nos separando. E daí, de novo, eu abraćo vocź numa grande distancia. É um abraćo longo sem regras.

Regras Norte Americanas

1. Falar inglźs.
2. Ele que tem fazer as regras.
3. Fumar é proibido em lugares públicos e nos aviões.
4. Just do it. (Faća e pronto)
5. Quando em dúvida, consulte seu advogado.
6. Beba Coca Cola. Ť o sabor.
7. Nós somos o mundo.
8. Nós somos o lugar mais feliz da Terra.
9. Nós aceitamos American Express, Mastercard, ou Visa.

Eu me lembro anos atrás ter visto um panfleto para viajantes japoneses , com explicaćões sobre uma série de cenários possíveis em lugares estrangeiros e comportamentos apropriados. Eram temas a serem observados, desde de dar a mčo para cumprimentar, ate sentar (nčo ficando em pé) sobre os assentos dos vasos sanitários. Ficando em pé nos assentos dos vasos sanitários era como usar o vaso sanitário japonźs que está junto ao chčo. Vocź tem que se agachar sobre ele. Os brasileiros o chamam de “motoquinha.” Vocź tem que se sentar nela como uma motocicleta. Em lugares públicos tem vaso sanitário tipo ocidental marcada na porta, e nos hotéis e em casas os vasos sanitários sčo os mais sofisticados do mundo.

Um companhia chamada “ Toto” vende um tipo de vaso sanitário com um assento aquecido, bidet acoplado e um sistema de secagem de ar. Realmente maravilhoso. O bidet poderá esguichar água, na frente ou atrás. Sim, há claramente dois desenhos para escolher. O pai de uma amiga fez uma demonstraćčo de seu modelo e perguntou me se nčo tínhamos vasos sanitários assim nos Estados Unidos. Quando disse que provavelmente nčo, ele me falou como piada que, neste caso, ele nčo poderia viajar para lá. Além do mais, desde que ele adquiriu o novo vaso sanitário, ele nunca mais usou papel higiźnico. Neste caso, comecei pensar que eu precisava de um panfleto com desenhos explicativos e de uma série de cenários e comportamentos apropriados. Se eu empurrasse o botčo para bidet, como é que eu poderia alterar a temperatura da água? Mais importante ainda, como é que eu poderia fazer a água parar de esguichar?

Há uma sistema estranho nos banheiros de alguns lugares públicos que produz o som da descarga. Na primeira inspećčo e sem poder ler o explicaćčo em japonźs, tentei várias vezes dar descarga enquanto passava a mčo sobre o sensor. Curiosamente, só conseguia o som da descarga. Nčo tinha água. Somente o som. Finalmente, eu peguei uma intérprete e a trouxe ao banheiro para uma explicaćčo. Ah! Aparentemente as mulheres japonesas acham o som do “xixi” ofensivo; para mascarar, elas dčo descarga e fazem xixi ao mesmo tempo. Uma perda enorme de água; entčo, “Toto” inventou o som da descarga.

Finalmente, os banheiros japoneses, mesmo os mais luxuosos (mesas de mármore, iquebana, sabčo perfumado), nunca tem toalhas de papel. Vocź tem que levar a sua própria toalha, e eu sempre a esquećo. Como resultado, os banheiros nčo tem lixo. Quem sabe? Com “Toto”, um dia, eles poderiam dispensar o uso do papel higiźnico.

Uma amiga brasileira, Ana Maria Bahiana, escreveu um livro, América: A a Z, vendido em aeroportos, com detalhes de todos os hábitos e situaćões da vida americana que os brasileiros acham frustrantes, gozadas, sem explicaćões, ou curiosas. Em baixo de “B” é bidet. Nčo há bidets nos EUA, ela nota. Ana Maria tem saudades de seu bidet, mas eu nčo me lembro quem realmente os usa no Brasil; na maioria das casas, só se usa para lavar calcinhas. As lojas de materiais de construćčo vendem a bacia do vaso sanitário com um bidet, como complemento. É um par, nčo e?

Lugares públicos no Brasil, certamente nčo tem bidets. Alguns nčo tem papel higiźnico, nem toalha de papel. Neste caso, tem uma mulher que oferece este “kit” essencial, por um pequeno custo. Esta mulher, supostamente, também limpa o banheiro, lavando as bacias e o chčo. O que vocź paga é provavelmente o jantar dela. Mas, as vezes quando vocź nčo tem o dinheiro da “caixinha”, para a mulher do banheiro; vocź tem que correr de lá esperando que ela nčo veja e venha atrás de vocź.

As mulheres americanas acabaram com banheiros pagos, já há algum tempo. Isto foi o maior ato de movimento feminismo naquele tempo. De fato, uma mulher americana-asiática ficou famosa ao politizar esta plataforma: fazer xixi de graća. Mesmo assim, ainda há muito chčo a se percorrer nos EUA. As mulheres ficam em filas intermináveis esperando para entrar nos banheiros dos teatros e lembram que foi, provavelmente, um homem o arquiteto do projeto.

A coisa que mais impressiona nos banheiros públicos americanos é a grande quantidade de papel: rolos e mais rolos de papel higiźnico para que vocź nunca sinta falta, e toalhas de papel que enchem e caem fora das latas de lixo. Mais importante ainda, os vasos sanitários americanos, geralmente, tem papéis apropriados para se colocar sobre os assentos. Vocź pode ouvir as mulheres nos outros cubículos, rasgando-os, arrumando-os, sobre os assentos. Vocź nunca sabe o que poderia estar sujando o assento duma privada. Algumas mulheres devem usar o método de agachar sem tocar no assento. Bom, umas devem sentar do mesmo jeito. Quem sabe, talvez algumas subam e agachem.

Tudo isto quer dizer sobre regras e provavelmente nčo muito erudito. Os romanos inventaram o encanamento. Se vocź já tentou consertar o encanamento, vocź verá como nada mudou desde os romanos. Em Versailles, dizem que nčo existiam vasos sanitários; vocź, simplesmente, desaparecia por alguns momentos atrás das cortina de veludo que cobriram as paredes. No Jardim Iso em Kagoshima, uma guia vestida em quimono mostra o lugar onde o nobre Shimazu sentou, os excrementos dele caindo numa cama aromática de folhas de cedro. Vocź olha dentro do vaso e é verdade: galhos de cedro. Algumas regras sčo rituais. Algumas sčo hábitos.

Regras da Circulo K

1. Imigrar para seu próprio país.
2. Aprender a cozinhar suas comidas favoritas.
3. Fazer a próxima pergunta.



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